quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Voce conhece seus direitos e deveres dentro da universidade?

Por Luiz Fernando Roscoche,  Taiane de Cássia e Vandinei S. Nascimento
Parte dos alunos da instituição tem pouco conhecimento sobre os seus direitos e deveres na universidade. Com o objetivo de proporcionar maiores informações foram realizadas algumas perguntas aos acadêmicos sobre suas dúvidas em relação aos tramites na universidade.
Trabalho de Conclusão de Curso
Muitos acadêmicos se questionam se é possível que o seu trabalho de conclusão de curso (TCC) poderia ser orientado por outro professor externo a sua faculdade. Segundo o vice coordenador da UFPA Campus Altamira, prof. Dr. Francisco Plácido Magalhães de Oliveira “caso o aluno queira ser orientado para o seu TCC por outro professor que não seja da instituição, o aluno deve procurar sua faculdade para que possa ser enviado um documento ou o convite para a orientação”.  
O regulamento do ensino de graduação no Art. 95. estabelece que o TCC será orientado por docente da UFPA “devidamente credenciado pelo Conselho da Faculdade ou Escola e vinculado à área temática do trabalho, indicado, sempre que possível, pelo próprio discente”. (Resolução n. 3.633 / CONSEPE, de 18.02.2008 – Anexo 21). Ainda segundo o documento (paragrafo único), “A  critério do Conselho da Faculdade ou Escola, poderá ser aceita orientação do TCC por profissional externo à instituição, desde que seja co-orientado por docente vinculado ao curso”.
Transferência para outra instituição
Segundo o prof. Dr. Francisco Plácido Magalhães de Oliveira, “as formas para o aluno efetivar sua transferência de curso, é fazendo a Mobilidade Acadêmica Externa (Mobex) e Mobilidade Interna (Mobin) ou em casos diferenciados de urgência, como óbito de algum membro da família”.
Já segundo o regimento geral da UFPA, no seu artigo 119, diz que será admitida a transferência entre Campi, “independentemente de vaga, a discente da UFPA sujeito a mudança de domicílio decorrente de assunção sua, de seu cônjuge, companheiro (a) ou de seu responsável legal a cargo eletivo estadual ou municipal”.
O regulamento do ensino de graduação, em seu artigo 74 considera que “no caso de transferência de discente para curso similar, cuja estrutura curricular seja diferente do seu curso de origem, cabe à subunidade acadêmica efetuar a análise comparativa dos currículos para fins de aproveitamento de estudos.” O mesmo documento em seu artigo 75 estabelece que caberá ao órgão central de registro acadêmico a codificação diferenciada de cursos similares oferecidos por diferentes unidades acadêmicas desta Universidade.
Programa da disciplina
Outro direito do aluno e um dever do professor é que este último deve apresentar e discutir no primeiro dia de aula o programa da atividade curricular e o respectivo plano de ensino (art. 102 inciso 3º).
Sobre as avaliações
Segundo o artigo 110 do Regimento de Graduação, cabe ao professor  apresentar à sua turma, no início do período letivo, os critérios de avaliação da aprendizagem conforme o plano de ensino e discutir os resultados de cada avaliação parcial com a turma, garantindo que esse procedimento se dê antes da próxima verificação da aprendizagem. Cabe ainda ao docente fazer o registro eletrônico do conceito final, de acordo com as orientações do órgão central de registro acadêmico, no prazo máximo de 10 (dez) dias a contar do encerramento do período letivo.
No artigo 180 do regimento geral da UFPA estabelece que trabalhos e provas devem ser devolvidos aos alunos depois que os professores lançarem os conceitos. O inciso 1° do artigo 180 diz ainda que o aluno terá três (3) dias úteis para recorrer do resultado da avaliação, devendo para tal apresentar, quando couber, o trabalho escolar avaliado.
Os alunos que faltarem no dia de houver aplicação de provas somente terá direito de solicitar uma avaliação de segunda chamada (segundo o artigo 115 do regime de graduação) quando houver algum impedimento legal, por motivos de doença atestada por serviço médico de saúde ou motivo de força maior, devidamente comprovado. Para requerer uma avaliação de segunda chamada o aluno deve requerer por escrito à direção da subunidade acadêmica em até setenta e duas horas úteis após a realização da primeira chamada.
Sobre as faltas
Segundo o inciso 2º do artigo 109 do Regimento de Graduação, o docente responsável pela atividade curricular é o responsável pelo controle da frequência às aulas sob a supervisão da direção/coordenação da subunidade acadêmica.
Segundo o Regimento Geral da UFPA, artigo 179, o aluno será aprovado na disciplina ou atividade quando obtiver o conceito REG, BOM ou EXC e pelo menos setenta e cinco por cento (75%) de frequência nas atividades programadas. Ou seja, obtendo um índice de comparecimento inferior a 75%, o aluno será reprovado por falta.
Esteja informado(a)!
A UFPA disponibiliza um guia de orientações para os calouros contendo as informações básicas para que o aluno conheça o funcionamento da instituição. Além desse guia os acadêmicos podem consultar:
o Estatuto da UFPA no endereço: http://www.portal.ufpa.br/docsege/ESTATUTO.pdf e  o Regulamento de Graduação: acessando http://www.proeg.ufpa.br/view/inicio/
É essencial o aluno manter-se informado sobre a organização da instituição seja buscando informações junto a secretaria do Campus ou no site da instituição http://www.portal.ufpa.br/.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Nossa linda juventude e seu jeito aparelhagem de ser.


                                                            Este trabalho deve ser intensificado


Essa é a juventude paraense. Resultado de anos de uma boa educação, de um ensino escolar de qualidade e uma vida com dignidade. É isso mesmo! Quando o povo tem boa estrutura familiar, acesso a informação e boa escola, não poderia ser diferente. É assim todo fim de semana. Saimos pra nos divertir ao som do Mega Hiper Todo Poderoso cheio de adjetivos Super Pop; ou acompanhamos as carretinhas turbinadas que se espalham pela cidade de Marabá. E assim vai a vida: com a certeza de que a nossa sociedade avança cada vez mais com muito orgulho de ter uma juventude madura que sabe o que quer, consciente do momento social em que está inserida em pleno gozo de suas habilidades intelectuais expressadas com toda (super potente) força no som e nas letras das músicas de nossas tão queridas e “consideradas” aparelhagens tecno-melody-pop sertanejas. Não podíamos estar passando por um momento melhor na produção artística local, momento esse desfrutado por todas as classes sociais, pois as aparelhagens sonoras com seus artistas e seu trabalho musical de primeira podem ser escutados tanto  num barraco na periferia quanto dentro dos carros e pick ups importadas que passeiam pelas nossas ruas. É a democratização do gosto popular sendo reconhecido pela sociedade como um todo sem preconceitos. Um outro ponto muito importante de se ressaltar é a segurança nas festas de aparelhagem, sempre impecável. Sequestro relâmpago?! Nada disso, isso jamais ocorre em uma festa popular e tranquila. Tráfico de drogas?! De jeito nenhum, nossos DJs jamais se envolvem nesse tipo de crime. Poluição sonora e ambiental? Nada disso, a SEMA (Secretaria de Meio Ambiente) tem marcado presença em 100% das festas fazendo com que a lei seja cumprida e que o direito ao sossego e ao descanso também sejam garantidos a todos os trabalhadores e pais de família de nossa querida Marabá.
Na região sudeste paraense, onde a lindíssima música pop enlatada sertaneja tem lugar de destaque com seus cowboys de boutique, o tecnomelody e suas festas de aparelhagem ganham espaço tão grande quanto o do vaqueiro de carro tunado. Mas, independentemente do estilo musical o que prevalece é o nosso jeito "aparelhagem de ser". Dentro de casa, do ônibus, no trabalho, nos volumes dos celulares, nos carros e nas mega-hiper super poderosas mais que estúpidas pick-ups, temos orgulho pra dar e vender de um hábito violentamente cultural de escutar música no mais alto dos volumes. Graças a Deus, nossas igrejas também já embarcaram nesse hábito salutar e divinamente sonoro e salvador. Vivemos em uma cultura super hiper mega democrática que ultrapassa a necessidade de diálogo, até porque isso seria impossível com o volume no máximo. Onde quer que haja uma caixa de som, o que não é muito difícil de se encontrar na terra do tecnobrega, haverá um tecnomelody ou pop sertanejo tocando. É de dar orgulho, não é mesmo?!
            As festas com aparelhagem e a cultura da música alta estão em toda a parte contribuindo cada vez mais para a tão sonhada paz e a queda nos índices de violência urbana, pois afinal de contas, o alto consumo de álcool, sexo a qualquer custo, de qualquer jeito e drogas ilícitas usadas pelos jovens são a prova da alegria e felicidade de uma juventude cheia de perspectivas e sucesso na vida. Tudo isso pode ser comprovado nas páginas policiais dos jornais diariamente.
Esse é o Pará, música de qualidade, povo consciente de seu papel, jovens cada vez mais maduros para a vida em todas as camadas sociais. Nosso mega, super, poderoso, considerado e potente futuro esta aí. Mal posso esperar pra escutar de novo as meninas cantando que querem dar o seu “charque”, seu “cozido”, sua “periquita”, ou ainda perguntando “cadê o corno?”. É realmente de dar inveja a nossa cultura da música alta. Graças a esse quadro, o estado do Pará é sempre visto como uma grande referência, sendo aclamado em todo o país através de programas de TV e telenovelas sem nenhum preconceito. O volume e a potência de nossas aparelhagens sonoras refletem o nosso nível cultural e intelectual, o que reforça a nossa autoestima, o nosso orgulho de ser paraense e fazer parte de uma comunidade que só tende a crescer como exemplo a todos no Brasil e no mundo. Quem não gostaria de tirar uma foto com nossos DJs e cantores, ou melhor ainda, aparecer no mais recente de seus DVDs? Não é mesmo o máximo? Finalmente, parabéns a todos os DJs e donos de aparelhagens pelo ótimo trabalho que vêm realizando junto à sociedade aliando entretenimento de qualidade com conhecimento para todos. Vocês são demais, vocês são super, são poderosos, mega, hiper considerados! Sem vocês, não sei o que seria de nossos jovens tão carentes de referências e um horizonte para buscar ou um volume pra aumentar. As famílias estão muito mais tranquilas (só não conseguem dormir) sabendo que seus filhos participam de eventos sonoramente tão importantes para o futuro de todos. Um super potente e sonoro obrigado.
Jairo Souza,

sábado, 27 de outubro de 2012

Sem Terrinhas, as crianças do MST .

Encontro Estadual Sem Terrinhas no Ceará. Veja as fotos.
http://www.flickr.com//photos/88707492@N05/sets/72157631783574754/show/

Ser indígena no Brasil - Texto do Blog Almoço das Horas.

A recente divulgação da carta que uma comunidade indígena Guarani-Kaiowá de Dourados (MS) enviou à Justiça Federal pedindo que, uma vez que não lhes é permitido viver da forma que consideram digna, seja logo decretada a morte de toda a comunidade, por cruel que pareça, não deveria causar espanto. Condenados à morte, sejamos sinceros, os índios brasileiros estão há mais de 500 anos, mas a execução da sentença é lenta, torturante e cínica.
O que espanta, desta vez, é que os próprios Guarani-Kaiowá tenham pedido ao seu inimigo mais ou menos declarado – esta coisa que insistimos em tratar como “civilização” – que seja mais sincero. Sim, mais sincero e diga claramente que o índio não interessa, não se encaixa no modo de vida a que todos, sem privilégios (ouçam o eco iluminista...), estamos condenados.
Aprendemos com Marx que o capital libertou o trabalhador da escravidão à força, típica de formações econômicas pré-capitalistas, para submetê-lo a uma forma diversa de escravidão: o trabalho assalariado, a compra e venda da força de trabalho. (Sim, ainda há trabalho escravo – e ele não é incompatível com o capitalismo. Apenas não pode ser a regra, porque a valorização do capital depende de sua circulação também na forma de salário, o que não impede que um ou outro capitalista faça uso da extração violenta da força de trabalho.)
O trabalho como mercadoria é – em regra, insisto – o único compatível com uma sociedade em que tudo é mercadoria, em que o acesso aos bens indispensáveis à existência passa inescapavelmente pelo mercado: pagou, tem; não pagou, não tem. Ponto final. É óbvio, neste esquema rigoroso de trocas, que não se tolere qualquer exceção à lógica mercantil. Em outras palavras, o que o capitalismo não tolera é a manutenção, em seu mundo, do que não é mercadoria e, ainda por cima, impede o livre desenvolvimento de suas forças.
O que são, afinal, os índios para a ordem capitalista? Um ônus, um entrave, uma aberração, mas que, por não ser conveniente à “civilização” assim declará-los, recebem da nossa Constituição instrumentos para sua proteção que são constantemente “desmoralizados” (e é inevitável usar aqui esta palavra porque a proteção aos índios assume exatamente uma feição moral na ordem jurídica, ao mostrar como somos gratos e responsáveis com nossas, digamos, “origens”), como na decisão da Justiça Federal que exterminou, por enquanto, a paciência dos índios e sua esperança de viver no espaço que a “civilização” reservou àqueles que a antecederam. E sobreviveram à sua afirmação.
A carta à Justiça Federal não deixa dúvida: os Guarani-Kaiowá cansaram de reivindicar o direito de sobreviver como índios e não aceitam viver senão como índios. Não aceitam migrar para o regime do trabalho precário (prestado, no geral, a quem tomou suas terras) ou da mendicância às margens do exuberante mundo das mercadorias. O “bilhete suicida” que essa comunidade manda para nós, não o tomem como chantagem, “drama” etc. É um “basta”, um “chega”, mas principalmente uma prova de que os índios, com sua habitual sabedoria, entenderam melhor do capitalismo e de sua “civilização” do que nós, que nele estamos afundados até o pescoço – e um pouco mais.
Não só sua própria existência, mas a forma como os índios insistem em mantê-la é uma grande afronta ao capital e sua lógica. Vejam o que diz a carta: “Nós comunidades cultivamos o solo, produzimos a alimentação aqui mesmo, plantamos mandioca, milho, batata-doce, banana, mamão, feijão e criamos de animais domésticos, como galinhas e patos. Aqui agora não passamos fome mais. As nossas crianças e adolescentes são bem alimentadas e felizes, não estão pensando em prática de suicídio. Assim, há uma década, nesses 12 hectares estamos tentando sobreviver de formas saudáveis e felizes, resgatando o nosso modo de ser e viver Guarani-Kaiowá, toda a noite participando de nosso ritual religioso jeroky e guachire”. Como assim alimentadas, saudáveis e felizes? Sem ter pago por isso? Este intercâmbio do homem com seus iguais e com a natureza orientado apenas e tão-somente por suas necessidades – do espírito e do estômago – é inadmissível para o capital. Mais ainda: é sobre sua negação que se constituiu a forma como vivemos nos últimos 3 ou 4 séculos.
Os índios, neste contexto, são não apenas supérfluos, mas uma espécie de mau exemplo a ser apagado do horizonte de formas de “ser e viver” à venda – sim, à venda – em nosso tempo. O que será de uma sociedade “sem alternativas” se tolerar uma forma de vida que se nega à troca, ao dinheiro, à concentração da riqueza, ao desperdício? Desta vez, a pedido dos próprios índios, a “civilização” terá oportunidade de declarar o que pensa a este respeito.
A propósito, a Constituição brasileira afirma que “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (art. 231).
Se nossas autoridades, que têm sua função justificada por essa mesma Constituição, não se preocuparem em respeitar tais palavras, será muito difícil evitar que se confirmem a tragédia da carta dos índios e o pessimismo das linhas acima. Mas também será cada vez mais difícil – creio e espero – manter os grupos oprimidos e suas reivindicações dentro de comportados limites legais.
*Tarso de Melo (1976) é advogado, mestre e doutor em Direito pela FDUSP, professor da FACAMP e coordenador de pós-graduação da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. É um dos coordenadores da coleção Direitos e Lutas Sociais (Dobra/Outras Expressões).
Fonte: Editora Expressão Popular

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Reurbanização ou Apartheid Urbano?

Ensaio para a disciplina Fundamentos das Ciencias Sociais do curso de Ciencias Socias da UFPA/Marabá.
 



"A cidade não pára, a cidade só cresce,
o de cima sobe e o de baixo desce"

Chico Science


O desejo de ter uma casa própria está no imaginário de boa parte da população brasileira, a ideia de possuir e usufruir de um espaço seu pelo resto de sua vida já se estabeleceu como parte essencial dos planos de milhares de brasileiros ao longo de nossa historia recente. O governo brasileiro lançou ao longo das últimas décadas vários programas de habitação, como o Minha Casa, Minha Vida, mais recentemente e vários outros que em tese deveriam ajudar na superação de um problema social grave de falta de planejamento urbano, de políticas publicas de habitação e saneamento básico, mas que nunca deram conta de superar um déficit habitacional histórico. A casa própria como realização de um sonho, continua para muitos, apenas um sonho, pois na vida real, moradia no Brasil já se tornou há muito tempo, um verdadeiro pesadelo. Em especial nas áreas urbanas e grandes centros, este útimo como o lugar pra onde milhares de brasileiros se direcionaram nas últimas décadas na busca de trabalho e sobrevivência, ou simplesmente de um lugar para viver.
O Estado brasileiro não tem sido capaz de avançar nesse campo sem promover o terror urbano, a perseguição aos moradores de favelas, executada friamente pela polícia com o aval do próprio Estado. Além disso, temos como consequência dessas ações, a estigmatização dos moradores de favelas, que em geral, são vistos como criminosos, sob olhares racistas dos mais diversos setores da sociedade.
A luta por espaço nas grandes cidades revela uma lógica perversa instaurada pela força do capital no Brasil desde o início do século XX e que ganhou impulso ainda maior com o avanço dos grandes projetos empreitados pelo governo militar a partir dos anos 60 e se perpetua até hoje através de grandes corporações bancárias mundiais e empreiteiras da área da construção civil.
Neste contexto, nos propomos a discutir a partir de um olhar crítico, as sucessivas e sistemáticas remoções de moradores de favelas na cidade de São Paulo, bem como os incêndios que vem ocorrendo na cidade nos últimos meses, o que se percebe como mais uma etapa do processo de expansão do capital engendrado por uma lógica perversa, criminosa e de um total descaso com a vida e dignidade humanas; e que ainda encontra respaldo legal e conivência do poder público, no que mais parece ser uma "higienização" do espaço urbano com o objetivo de "abrir caminho" para a especulação imobiliária voltada para a chamada reurbanização seguindo as regras do capital que se pauta também em um discurso de urgência em torno das expectativas de eventos esportivos internacionais como a Copa do Mundo de 2014. Nas palavras de Garnier,

 A chegada, aos bairros operários, de grupos sociais pertencentes às classes de maior pode aquisitivo é vista, com frequência, como uma invasão. Para a maior parte dos moradores afetados, essa mudança significa especulação financeira e imobiliária, o que acelera sua expulsão e substituição por cidadãos mais abastados. (GARNIER,2012)

Dentro desta lógica, o espaço denominado de favela representa uma espécie de entrave ao canteiro global de obras numa assimetria atroz que só pode ser interpretada como uma forma gritante de um conflito de classes pela ocupação dos espaços urbanos (HARVEY, 1990). Harvey também aponta que muito mais do que um conflito, há sim, o reforço de uma divisão de classes, um separatismo urbano, pois com o crescimento dos chamados setores de serviços, fomentados principalmente pela "terceirização" de  uma série de atividades comerciais, como por exemplo, a construção de shopping centers e condomínios residenciais em áreas de crescente urbanização; áreas consideradas também em crescente valorização pelo mercado imobiliário. Dessa forma, as favelas recebem assim sua "ordem de despejo" o que vai gradativamente sendo assimilado como um processo natural ou como parte de um movimento maior que é compreendido como necessário por grande parte da população cinicamente manipulada pelos meios de comunicação de grande alcance como a TV e os jornais. Tudo em nome de um suposto desenvolvimento e que agora se torna ainda mais perverso com o seu mais recente adjetivo: sustentável.
O fenômeno não é novidade e nem exclusividade de São Paulo ou de outras capitais brasileiras. Cidades como Paris, Pequim, Nova York, Istambul e outras mundo afora têm historias muito semelhantes e seguem dentro de um modelo de expansão do capital globalizante gerador de um habitat mais clean para os vips da sociedade. Enquanto isso, somente no ano de 2012, já foram registrados mais de 33 incêndios em favelas na cidade de São Paulo e o número já pode ter aumentado. Além do mais, ocorre de forma sistemática também, a remoção de famílias para outras áreas longe do centro comercial e das áreas com crescente valorização imobiliária. Geralmente, as remoções acontecem sob a promessa de uma relocação dessas populações para novas moradias, mas na prática são pouquíssimos os contemplados com algum tipo de indenização ou simplesmente a espera pelo "novo lar" supera em muito o tempo anunciado antes da remoção. É como se fosse preciso "maquear" a cidade para os grandes negócios e a melhor maneira é eliminar qualquer obstáculo; logo, se as remoções em massa não são suficientes, surgem também os incêndios para colaborar com o processo pois são sempre declarados como fatalidade ou acidente inexplicável. Os incêndios nas favelas de São Paulo já são objeto de investigações, o que muito provavelmente não vai dar em nada, se considerarmos a possibilidade de alguém realmente ter algum dia que pagar pelo crime.
Fatos como esses ocorrem em todo o país quase que diariamente. O caso mais conhecido recentemente foi a ação desastrosa e criminosa ocorrida em Pinheirinho, no município de São José dos Campos à 97km da capital paulista, em que a polícia com um mandato de reintegração de posse invadiu e atacou violentamente os moradores daquele local, expulsando-os à força e destruindo por completo suas casas e seus pertences. De acordo com notícia publicada no site EBC da TV Brasil no dia 29/09/2012, há uma CPI instaurada na Câmara Municipal de São Paulo para investigar se os incêndios ocorridos nos últimos meses se confirmam ou não como criminosos. A Câmara, inclusive, já foi palco de protestos de moradores que ficaram na rua, perderam seus pertences, ou ainda mais grave, perderam filhos, amigos ou parentes em algum incêndio recente.
No caso das remoções em massa, estas são geralmente seguidas de tensões, confrontos, prisões e até mortes entre a polícia e moradores. A mídia televisiva tem tratado os incêndios como resultados do intenso calor que se abateu na cidade e/ou por causa das péssimas instalações elétricas que existem nas favelas, fazendo assim seu papel de colocar a situação como "fatos isolados" em uma tentativa de reforçar a ideia de que, mais cedo ou mais tarde, os incêndios acabariam acontecendo devido à falta de infraestrutura dos locais onde aquelas pessoas moram. Tudo isso "apazigua e camufla" uma triste realidade vivida por milhares de brasileiros mergulhados num verdadeiro "inferno urbano".
De acordo com pesquisadores do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos (LabHab) e do Laboratório do Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), oito grandes intervenções em curso estão previstas para a cidade de São Paulo. O problema é que as remoções, as quais são parte da chamada reurbanização, não são realizadas dentro de um planejamento real de infraestrutura, saneamento básico, indenizações pela saída do local onde o morador habitava, ou ainda, uma real discussão do por que aquelas famílias devem ser removidas para outro local. Não há a construção de um diálogo claro ou participação efetiva dos moradores no processo. A vida humana fica relegada a um segundo ou terceiro plano porque "o mercado ou o poder do capital não podem esperar". Ainda nesse contexto, a Defensoria Pública da União e o Ministério Publico limitam-se aos cálculos dos impactos causados pelas remoções e/ou pelos incêndios, apontando claramente que seu posicionamento segue o discurso da reurbanização inevitável e urgente. Como resultado dessa política, o número de desabrigados ou sem-teto na capital paulista só tem aumentado a cada dia.
Em uma época em que alguns teóricos chegam a anunciar o "fim da história", a luta de classes se demonstra mais evidente do que nunca, exposta de forma perversa através de despejos, perseguições e assassinatos, que obedecem a uma lógica famigerada entendida e anunciada em forma de "ordem e progresso", quando, na verdade, estamos testemunhando um apartheid de classes diante dos nossos olhos. Em seu livro, "A Condição da Pós-modernidade", David Harvey enxerga o capital como um processo não uma coisa; e é exatamente esse processo que vivenciamos nas mais diversas áreas urbanas no Brasil e em diferentes parte do mundo. Nas palavras de Harvey,

Esse processo mascara e fetichiza, cresce através de uma destruição criativa, cria novos desejos e necessidades, explora as capacidades de trabalho humano e de desejo, transforma espaços, e acelera o ritmo de vida. Ele produz problemas de acumulação material para a qual há apenas um número limitado de possíveis soluções. (HARVEY, 1990, p.343) (Tradução minha)[1].

Vemos que esse processo vai se "naturalizando" como inevitável e é justamente pelo fato de que existe um débito histórico do Estado com a própria população é que se criam mecanismos como o discurso da reurbanização; discurso este que legitima a remoção de famílias das favelas, que são vistas como um entrave para o desenvolvimento e para o crescimento econômico local e global. No entanto, somente aqueles poucos que tiverem condições financeiras de se endividar pela vida inteira poderão adentrar ao mundo do apartheid urbano e se mudar para as cidadelas monitoradas por câmeras 24 horas. O mundo dos condomínios fechados (e muito bem fechados) com a garantia das empresas de segurança privada, que cada vez mais ganham espaço nas áreas residenciais e comerciais.
            A fragmentação e a compartimentação do espaço geográfico são características do momento histórico em que vivemos. De acordo com Santos (2011, p. 81), "com a globalização, todo e qualquer pedaço da superfície da Terra se torna funcional às necessidades, usos e apetites de Estados e empresas nesta fase da história", ou seja, nada está livre e nem deve estar de se adaptar a esse sistema que tudo empacota e transforma em produto para ser ofertado ao "deus" que nos acostumamos a chamar de mercado. O movimento que segue é o de apropriação e desapropriação, ocupação e desocupação se reproduzindo o avanço mercantilizado de uso dos espaços em um ritmo que não cessa e tende a acelerar-se cada vez mais enquanto houver espaços a serem explorados.
O capital avança em direção dos "espaços vazios" sem se preocupar com o dia de amanhã numa onda de emergência criada por ele mesmo onde a acumulação material se concentra cada vez mais nas mãos de poucos e a maior parte dos grupos humanos se vê cada vez mais alijada de participar efetivamente desse processo.
A problemática da moradia em São Paulo é também um retrato de um país que há muito está em débito consigo mesmo, fruto de um Estado falido, incapaz de trabalhar de forma mais justa a coletividade. Lugar onde se prega o sustentável mas se aplica justamente práticas contrárias ao mesmo princípio. Como resultado, temos mais violência, o aprofundamento da competitividade na luta por espaços, o empobrecimento das massas, mais injustiça em todos os níveis imagináveis e o constante desrespeito aos direitos humanos entre outros direitos fundamentais. Ao mesmo tempo, o tão propagado desenvolvimento é usufruído apenas por uma pequena parcela de atores globais representados pelos grandes bancos e corporações transnacionais, verdadeiros manipuladores do poder do dinheiro e da informação. Atores que mantém boa parte da população "prisioneira e cativa" na era das telas de TV, Internet e celulares, os quais correspondem positivamente a cada nova ordem imposta pelo capital.


[1] Tradução minha para o original em inglês. "The process masks and fetichizes, achieves growth though creative destruction, creates new wants and needs, exploits the capacity for human labor and desire, transform spaces and speed up the pace of life. It produces problems of overaccumulation for which there are but a limited number of possible solutions." (HARVEY, 1990, p. 343)



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

ESTUDANTES ORGANIZAM O 3º EELLA

Os estudantes de graduação do curso de licenciatura em Letras Inglês da FAEL (Faculdade de Estudos da Linguagem) estão organizando para o mês de dezembro a terceira edição do EELLA - Encontro de Estudantes de Língua e Literatura Anglófonas.


ORIGENS
O EELLA foi idealizado inicialmente pelos professores Jairo Souza, Cláudia Vidal, Luciana Kinoshita e Gizélia Freitas que na época formavam o corpo docente do curso e que contava com duas turmas - 2009 e 2010.   
A idéia inicial e que se mantém até hoje, é que o evento ocorra uma vez por ano como uma culminância das atividades desenvolvidas bem como a socialização dos trabalhos acadêmicos para estabelecer assim, um diálogo com a comunidade em que o curso se encontra inserida.
O primeiro EELLA ocorreu em dezembro de 2010 como parte das atividade do curso que havia se iniciado em Marabá há pouco mais de um ano. Ver link: I EELLA

 O segundo EELLA aconteceu no ano seguinte já com uma participação maior dos alunos, o que enriqueceu muito mais o evento, já que se buscava desde o início que os estudantes fossem os protagonistas do evento como parte de seu crescimento acadêmico e na busca de uma formação mais autônoma na graduação. Veja mais sobre o segundo EELLA 2011 no link: II EELLA

III EELLA em 2012
A terceira edição do evento ganha agora ainda mais força com a mobilização de uma equipe de alunos que estão a frente da organização e que prometem fazer do EELLA 2012 um evento marcante na trajetória dos estudantes de língua e literatura anglófonas na cidade de Marabá.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A exploração do trabalho aumentou

Há pessoas politicamente cegas, que pensam que o mundo do trabalho mudou. A exploração não é mais aquela dos séculos 19 ou 20. Por isso, é preciso mudar a política. A classe operária não está mais na miséria como antigamente. Esse é o papo de quem quer justificar o abandono da luta pelo socialismo e de sua adesão ao pensamento neoliberal. Isto é a aceitação do pensamento único, há 30 anos hegemônico. É claro que o mundo mudou, que a realidade do trabalho mudou, mas o fundamento do lucro do capital continua a ser a exploração e a opressão dos trabalhadores. A imposição de condições de vida e trabalho absolutamente desumanas. E o capital hoje, como sempre, prende, tortura e mata quem contesta ou faz morrer de miséria e de exploração sem fim.                
No mês de agosto o mundo assistiu a dezenas de mortes provocadas pela repressão policial a serviço dos patrões nas minas de ouro da África do Sul. Quem mandou matar? Não foi Deus e nem o Diabo. Foram os donos das grandes corporações que exploram o ouro, diamantes, ferro e mil outras riquezas daquele continente há séculos. Essa é a história da África, o continente mais saqueado pelas potências europeias para acumular suas riquezas. Nas mãos de quem? De um punhado de capitalistas, respeitosamente chamados de empresários.       
No Norte do mesmo continente, no Marrocos, há outra forma de matar trabalhadores, ou melhor, trabalhadoras. As duas maiores empresas pesqueiras da Holanda pescam camarões no Mar do Norte e os levam até o porto de Tanger, no Marrocos, para que sejam descascados. Lá estão instaladas as fábricas de descascamento onde trabalham mulheres, geralmente jovens entre 14 e 18 anos, por 12 horas por dia e em ambiente com baixíssima temperatura. No fim do mês levam para casa 60% do salário mínimo nacional. As adolescentes são tratadas como meras peças de reposição. Devido ao ritmo de trabalho e às péssimas condições, perdem sua capacidade produtiva aos 18, ficam aleijadas depois de quatro anos de trabalho.    
O mundo inteiro veste roupas ou sapatos do maior exportador mundial, a China. O segundo produtor mundial é Bangladesh. Lá a exploração é das mais terríveis. A imensa maioria das trabalhadoras ganha de 25 a 37 dólares mensais. Sim, de 50 a 80 reais. Vivem em favelas monstruosamente grandes, sem nenhuma condição humana de vida. Há constantes greves e manifestações de protesto, sempre reprimidas a tiros pela polícia dos patrões. Eles querem continuar com a mão de obra mais barata do mundo. Esta é a lógica do capital.            
E na Europa? Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal, Itália? Lá a moda é falar da crise e com isso aumentar a exploração e retirar direitos trabalhistas. E aqui no Brasil? Sim, há quase pleno emprego, mas várias medidas estão sendo armadas para “flexibilizar” as leis trabalhistas e diminuir os custos da mão de obra. Este é o mundo do capital. O nosso mundo, o do trabalho, precisa ser construído.

Artigo originalmente publicado na edição impressa 498 do Brasil de Fato